O presente trabalho estuda aspectos emocionais das relações interpessoais entre membros da família em negócio familiar.

Curso de Pós-Graduação em Dinâmica dos Grupos
Desenvolvido pelas Faculdades Monteiro Lobato – FATO, em parceria com a Sociedade Brasileira de Dinâmica dos Grupos – SBDG

Andréa Claudia Villela Figueiredo
Cláudio José dos Reis
Elaine S. de Oliveira Mouta

RESUMO
O presente trabalho estuda aspectos emocionais das relações interpessoais entre membros da família em negócio familiar. O objetivo é compreender a influência das emoções nas relações familiares, sobre a gestão de negócio familiar. O referencial teórico utilizado foram teorias sobre: Dinâmica dos grupos (DG), Análise Transacional (AT), concentrando o estudo nas Emoções, e Administração com ênfase na dinâmica da empresa familiar. O método utilizado foi pesquisa bibliográfica, complementada com pesquisa de campo aplicando questionário em empresas familiares. O estudo concluiu que aspectos emocionais relacionados a necessidades individuais básicas do grupo familiar, tendem a se sobrepor às necessidades sistêmicas da gestão do negócio. O estudo mostra tendência de influência negativa desse fator no contexto global da gestão, mas que também pode influenciar positivamente, quando os membros da gestão encontram meios de fortalecer a coesão utilizando-se da potência dos vínculos e tradições familiares.

PALAVRAS-CHAVE: Empresa familiar. Dinâmica do grupo. Análise Transacional.

ABSTRACT
This paper studies emotional aspects of interpersonal relationships among family members in family business. The goal is to understand the influence of emotions in family relations on family business management. The theoretical frameworks used were theories: Dynamics of groups (DG), Transactional Analysis (TA), focusing the study on emotions, and management with emphasis on the dynamics of family business. The method used was literature, complemented by field research applying questionnaire in family businesses. The study found that emotional aspects related to basic requirements of the family group tend to overlap the systemic needs of the business. The study shows trend of negative influence of this factor in the global context of management, but can also positively influence, when members of the management find ways to strengthen the cohesion using the power of relationships and family traditions.

KEY WORDS: Family business. Group dynamics. Transactional Analysis.

INTRODUÇÃO

Em nossa sociedade, muitas empresas surgem a partir da estrutura da família. Segundo pesquisa realizada em 2012 pelo Sistema Brasileiro de Apoio à Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), as empresas familiares representam cerca de 90% das empresas brasileiras. O atual modelo econômico fomenta elevado nível de competitividade, onde longevidade e prosperidade de uma organização estão associadas à qualidade do produto/serviço e também à qualidade da gestão do negócio. O mundo dos negócios é um ambiente propício a conflitos que surgem da diversidade de perfis comportamentais e interesses pessoais dos acionistas, gestores e colaboradores.
A vivência dos autores atuando como funcionários ou consultores de empresas familiares e o pressuposto de que a complexidade típica nos relacionamentos organizacionais pode ser potencializada em uma empresa familiar, serviu de motivação para realizar este estudo, na busca de uma melhor compreensão dos fatores emocionais na dinâmica de uma empresa familiar e os possíveis efeitos na gestão da organização.
A relevância e o impacto dos aspectos emocionais, na rotina e na gestão das organizações, é uma área do conhecimento que tem despertado crescente interesse no meio acadêmico e organizacional, com espaço para estudos em situações específicas, como no ambiente sócio-organizacional de uma empresa familiar brasileira.
Diante destas observações, o presente trabalho pode trazer uma relevante contribuição para a área do conhecimento do empreendedorismo, como um instrumento de compreensão dos fatores que podem interferir nos resultados do sistema de gestão do negócio e no nível de interação nas relações familiares.
O estudo abrange análise do efeito das relações familiares no sistema de gestão, buscando investigar a correlação entre emoções nas relações interpessoais entre membros da família com os papéis que desempenham na gestão da empresa. Busca também demonstrar aspectos da dinâmica do grupo familiar que impactam nas relações do trabalho em negócio de família.
O artigo possui a seguinte estrutura: Referencial Teórico, Pesquisa em Empresas Familiares e Conclusões.

1. REFERENCIAL TEÓRICO

A abrangência da pesquisa bibliográfica inclui conceitos sobre personalidade e comportamento humano, associados às peculiaridades de funcionamento de grupos, com ênfase em grupos de gestão de empresa familiar.

1.1 EMPRESA FAMILIAR E SUA GÊNESE

Empresa familiar pode ser definida como aquela em que membros de uma família exercem considerável controle administrativo, pelo fato de possuir parcela expressiva da propriedade do capital. De acordo com Castells (1999), em empresa familiar existe estreita relação entre propriedade e controle, sendo o controle exercido justamente com base na propriedade.
Segundo Donnelley (1976), numa empresa familiar, quase sempre a família tem poderes, como proprietária e/ou administradora, para procurar alcançar seus próprios objetivos e aspirações, mesmo quando não coincidam com os reais interesses da companhia.
Lodi (1987) afirma que em muitas das empresas familiares brasileiras se concretiza a profecia: a primeira geração constrói o patrimônio, a segunda se utiliza dele e a terceira o dilapida. Essa é a cronologia da glória e ruína de várias organizações empresariais que em numerosos casos se despedaçam em brigas entre familiares pelo espólio do fundador. São pouquíssimas as empresas familiares de quarta geração entre os principais grupos do País.
Encontramos nos estudos de Kurt Lewin, apud Mailhiot (2013), sobre gênese de grupos, um ponto de partida para análise desse fato, onde ele afirma que os momentos iniciais da formação de um grupo determinam seu devir e suas etapas seguintes. As leis e as modalidades de funcionamento de um grupo qualquer encontram-se inscritas nos processos e nas fases de sua gênese, ou seja, os traços de personalidade e o papel exercido pelo fundador são fundamentais para estabelecimento da cultura organizacional e base para definição do modo operacional das relações sociais.
No presente estudo abordaremos alguns conceitos da Análise Transacional (AT) , em especial: Estados de Ego, Emoções, Jogos Psicológicos, Posição Existencial e Script, visando facilitar o entendimento sobre a estrutura da personalidade humana, o modo como as interações sociais são impactadas por essa estrutura e meios de buscar o chamado caminho da “okeidade” nas relações dos indivíduos consigo mesmo e com os outros, fatores chave para a compreensão de aspectos do comportamento humano e interações sociais no contexto de uma empresa familiar.

1.2 COMUNICAÇÃO EM EMPRESA FAMILIAR

Segundo Lewin, apud Mailhiot (2013), a dinâmica de um grupo é determinada, em última análise, pelo grau de autenticidade das comunicações que se iniciam e se estabelecem entre seus membros.
Segundo Berne (1966), a estrutura da personalidade humana se consolida na infância precoce . O clima social em que uma criança vive é, para ela, tão importante quanto o ar que respira. O grupo a que ela pertence é o solo em que pisa. Sua relação com esse grupo e sua posição nele, constituem os fatores mais importantes do seu sentimento de segurança ou insegurança. Esses fatores sociais determinam o espaço de movimento livre de que dispõe, e até que ponto pode ela prever, com alguma clareza seu próprio futuro.
Berne observou a existência de sistemas coerentes de pensamentos e sentimentos que provocam uma determinada série de condutas reais e observáveis que, dependendo do estímulo do mundo exterior, podem se manifestar de três formas diferentes. Berne concluiu que cada indivíduo possui três Estados de Ego: Pai, Adulto e Criança. Essa composição da personalidade em três instâncias nos permite uma melhor compreensão das manifestações das relações sociais, ou seja, o DNA do processo da comunicação humana.
O Estado de Ego Criança é o centro energético e o motor da vida. É o primeiro a aparecer e o último a desaparecer. É a sede da intuição, do impulso criativo, das emoções, dos sonhos e fantasias e de tudo relativo ao corpo: visceral, sexual e sensorial. É onde estão alojados os conceitos sentidos de vida: impulsos, emoções, sentimentos naturais, criatividade, intuição, comportamento espontâneo e adaptações emocionais. O Estado de Ego Criança ama, sente prazer, sente alegria de viver, tem expressões emocionais, naturais, tem reações emocionais adaptadas: rebeldia, oposição, submissão.
O Estado de Ego Adulto é a parte da personalidade que nos habilita a reagir de modo racional e conveniente para obter mais gratificação e menos risco e/ou esforço. É onde estão alojados os conceitos pensados de vida: coleta de dados, computação de informações, avaliação dos fatos, reflexão sobre a conveniência da ação, adaptação à realidade e análise do futuro. Krausz (1999) define o Estado de Ego Adulto como o porto seguro que se utiliza de variáveis do aqui e agora.
O Estado de Ego Pai é a parte aprendida da vida onde ficam gravadas as mensagens introjetadas das figuras parentais. As normas sociais, os juízos de valor e os pré-conceitos são passados verbalmente e de forma indelével, pelo princípio da repetição espaçada, são internalizadas pelo individuo na sua infância.
A dificuldade que algumas empresas familiares encontram na comunicação entre seus membros dificulta o processo de negociação, que desde as mais simples até as mais estratégicas fazem parte do cotidiano de qualquer organização.
Em seus estudos sobre Negociação, Ury (2005) sugere que seria mais difícil negociar com quem, em tese, está “no mesmo barco”, o que se aplica diretamente a empresa familiar. Segundo Ury, em negociações que envolvem pais e filhos ou entre irmãos, é comum as pessoas deixarem se dominar pelas emoções.

1.3 JOGOS PSICOLÓGICOS

Os Jogos Psicológicos se caracterizam pela ocorrência seguida de situações similares na vida relacional de uma pessoa, que se inicia com uma “isca” que encontra uma “fragilidade” no outro e a partir daí se estabelece uma sequência de resposta, mudança e confusão, que levam ao que Berne chamou de “Benefício final”, onde cada um sente a emoção que aprendeu a sentir. Geralmente os jogos psicológicos estão situados entre os passatempos e a intimidade. Fugindo da monotonia dos passatempos, mas sem se expor aos riscos propiciados pela intimidade, muitas pessoas aderem aos jogos acreditando ser a maneira mais “segura” de estruturar o tempo, pois dessa forma podem manter o juízo de valor de si dos outros e do mundo, e manter o equilíbrio interno, fugindo de fobias.
Karpman (2014) apresenta o Triângulo Dramático, que é um instrumento através do qual se analisa os três papéis que as pessoas assumem durante os jogos psicológicos, onde:
Perseguidor – Aquele que aponta a culpa dos outros. Precisa de alguém para culpar.
Salvador – Aquele que deseja “consertar os problemas”. Necessita de uma vítima para cuidar, pois possui a crença que cuidar do outro é a única forma de sentir que tem valor.
Vítima – Aquele que demonstra inocência, vulnerabilidade e carência nas relações.
Berne (1966) identificou dezenas de jogos psicológicos e atribuiu nomes de fácil assimilação aos mesmos.
Vejamos o exemplo abaixo:
Situação típica: Em empresa familiar o Jogo psicológico chamado “Te peguei” ocorre quando um membro que possui estilo Perseguidor direciona suas atenções para encontrar “falhas” de outros. O jogador de “Te peguei” ao encontrar um jogador de “Bata-me”, aquele que deixa constantemente um motivo para ser chamado à atenção, estabelece um jogo previsível, fácil de ser observado em reuniões, e que acontece sem que os jogadores tenham consciência de seus movimentos.
De acordo com Berne (1966, pag.171) existe uma significância histórica dos Jogos Psicológicos, ou seja, os mesmos são passados de geração para geração. Os jogos prediletos de um indivíduo podem ser rastreados através do comportamento de seus pais e avós e, de mesmo modo, são passados para os seus filhos.
Em seus estudos, Berne (1966, pag.92) identificou alguns jogos típicos do relacionamento matrimonial, que por força legal da intimidade contratual, tendem a ser mais tolerados entre as partes. Segundo Berne (1966, pag.172), as pessoas escolhem para serem seus amigos, sócios e íntimos, pessoas que jogam os mesmos jogos ou jogos que se complementam.
Berne (1966, pag.171) observou também que comportamentos de um determinado grupo podem parecer estranhos para outro de diferente círculo social, e de forma recíproca, qualquer membro que inicie um movimento de mudança em seu modelo de jogos, tenderá a ser excluído do grupo.
Com base nessas constatações de Berne, podemos inferir que em uma empresa familiar, onde indivíduos participam de grupos que se imbricam, grupo família e grupo organizacional, o efeito de Jogos Psicológicos tende a ser potencializado, diante da possibilidade de continuidade no convívio familiar de jogos iniciados durante as atividades organizacionais ou vice-versa.

1.4 EMOÇÕES EM EMPRESA FAMILIAR

De acordo com as idéias de Pagés (1982), os fenômenos afetivos nos grupos podem ser observados diariamente. Tudo se passa como se temores não formulados paralisassem os participantes, por exemplo, o temor de ser prejudicado ou explorado pelos outros, o temor de se ligarem contra ele e de ser excluído, ou ainda outros temores. A própria confissão desses temores, é difícil ou impossível. Esses temores não formulados governam a vida do grupo muito mais do que os dados objetivos de um problema em discussão.
A argumentação entre os componentes, os conflitos de interesse aparentes, as teias e alianças no grupo, a própria configuração topológica dos participantes, a presença ou ausência de alguma forma de comando, são modos de expressar esses temores e ao mesmo tempo se defender deles.
Ao lado da dispersão de uma multiplicidade de conflitos inter individuais, existe a polarização que opões grupos poderosos, imobilizados em suas posições e se combatendo com argumentos estereotipados; a apatia, a depressão; o culto de um chefe, de uma ideologia, de um método que, suprimindo aparentemente todos os conflitos, os deixa de fato nos bastidores; a euforia súbita, a falsa harmonia sentimental, os fenômenos do bode expiatório (PAGES, 1982, 264).

Em todos esses casos existe uma distância entre a racionalidade consciente do grupo, principalmente sua ideologia e seu comportamento de fato. Em empresa familiar existe um sentimento dominante compartilhado por todos os membros do grupo, com sutilezas individuais. Esse sentimento é, em geral, inconsciente e governa a vida do grupo em todos os seus níveis. Os sentimentos individuais estão em relação com os sentimentos coletivos.
Ao contrário da imensa maioria dos animais, puramente instintivos, o ser humano é capaz de pensar sobre a sua existência e manifestar suas emoções de forma coerente e adequada. Expressar sentimentos é estar em contato com a sua própria essência.
Na convivência familiar, a criança aprende a intensidade e a durabilidade permitida das emoções, bem como aprende a modificar qualitativamente uma emoção não aceita por outra encorajada pela família, conquistando assim as carícias desejadas. Em relação às crenças e pontos de referência familiares, Kertész (1987) afirma que cada família possui um sistema estruturado, consciente ou não, sobre as emoções que se pode sentir e expressar.
Uma das contribuições de Berne (1988) foi a divisão das emoções em duas categorias: Emoções Naturais e Emoções Aprendidas. Essa divisão facilitou em muito o entendimento de doenças psicossomáticas e de dificuldades recorrentes nas relações interpessoais.
As Emoções são classificadas como Naturais (autênticas) ou Aprendidas (disfarces) de acordo com o grau de coerência que possuam em relação ao estímulo recebido. Assim, as Emoções Naturais, ao contrário das Aprendidas, são aquelas que apresentam um perfil compatível com o estímulo recebido, em intensidade, duração e proporcionalidade e que esteja relacionado com o tempo no aqui e agora.
As Emoções Naturais são vivenciadas por todo ser humano independente de sua cultura ou gênero, porque funcionam a partir do sistema nervoso autônomo.
A reação emocional de uma pessoa pode ser tanto física quanto mental, porque a psique humana está interligada a todo o sistema corporal. Tudo que acontece no nível da mente também afeta o corpo.
Segundo Berne (1988), existe basicamente cinco Emoções Naturais:
Medo: necessidade de proteção motivada por uma situação de perigo, real ou imaginário, para a integridade física ou moral de uma pessoa. Os sinais mais comuns são taquicardia, sudorese, palidez e um ímpeto de fuga.
Raiva: reação intempestiva motivada por um agente externo ou interno que se interpõe ou impede a concretização de um desejo ou objetivo. A Raiva é considerada Natural quando corresponde coerentemente com o estímulo recebido.
Tristeza: estado de profundo recolhimento motivado pela perda de algo ou alguém muito estimado. Também se manifesta durante a recordação de situações difíceis do passado.
Afeto: está diretamente vinculado ao amor e à capacidade humana de se entregar à promessa de vida que habita em todas as formas do universo. O afeto pode ocorrer em situações de proximidade e intimidade interpessoal, propiciando ao ser humano a manutenção de sua essência gregária.
Alegria: expansividade momentânea ou continuada, relacionada à conquista de um objetivo imediato ou à satisfação dos desejos mais preciosos, ou ainda em momentos de brincadeiras e descontração.
Berne (1988) afirma que existe um verdadeiro sistema de disfarces que engloba pensamentos, sentimentos e atitudes, criados pelas pessoas e pelas próprias instituições sociais e culturais (família, escola, agremiações religiosas e políticas), especialmente para manter sob um pretenso controle as mentes e os corações humanos. Os sentimentos de disfarce, por serem substitutos, estão ligados a cada uma das Emoções Naturais, com nome e graus variados:
Disfarces do medo: timidez, insegurança, confusão, culpa, fobias, inadequação, preocupação, vergonha, ansiedade.
Disfarces da Raiva: ira, ciúme, ódio, ressentimento, inveja, vingatividade, sadismo, mágoa, triunfo maligno.
Disfarces da Tristeza: solidão, angústia, desespero, depressão leve, desânimo.
Disfarces do Afeto: “melosidade”, apego exagerado, obsessão, sentimento de posse, falso afeto.
Disfarces da Alegria: falsa alegria, “sorriso amarelo”, ironia, euforia súbita.
A predileção por sentimentos de disfarce está diretamente relacionada aos modelos recebidos, sobretudo os parentais, os quais acabam funcionando como um quadro de referência que tende a acompanhar o indivíduo por toda sua existência.
Segundo Pedreira (1997), cada uma das cinco Emoções Naturais manifesta-se independentemente das demais, sendo elas excludentes entre si. Assim, não seria possível sentir, por exemplo, medo e tristeza ao mesmo tempo, pois uma emoção excluiria a outra. Contudo, algumas vezes ocorre um rápido trânsito entre uma e outra emoção, o que pode dar a impressão de que várias emoções são vivenciadas simultaneamente, quando na realidade, são vivenciadas seqüencialmente.
De acordo com Crema (1985), Emoção é constituinte do Estado de Ego Criança, onde existem funções diferenciadas. As Emoções Naturais situam-se na Criança Livre, que possibilita desfrutar emocionalmente a vida, gozar, amar, ser espontâneo e ter intimidade, estando orientada para a procura do agradável e fuga do desagradável, sendo regida pelo “Princípio do Prazer”.
As Emoções Aprendidas seriam próprias da Criança Adaptada Não OK, aquela que, segundo Crema (1985), modifica sua conduta sob influência do Pai, comportando-se de acordo com a programação feita por influência da figura parental. A manifestação da Criança Adaptada pode ocorrer de duas maneiras distintas: pela conduta submissa ou pela oposição sistemática às ordens e expectativas parentais. A primeira chamada de Criança Submissa e a segunda de Criança Rebelde.
Pedreira (1997) afirma que os disfarces são vivenciados como essenciais, uma vez assumidos, e que são decididos precocemente na infância quando as crianças são ainda dependentes de seus cuidadores. Algumas vezes os disfarces são assumidos como decisões de sobrevivência em circunstâncias catastróficas ou traumas de infância.
Aguilar (1999) chama à atenção para o fato de que ao assumir um disfarce o indivíduo alimenta a idéia de que suas emoções foram causadas pela ação de outras pessoas bem como as emoções de outros são causadas pelas suas ações.
Na primeira situação o indivíduo se isenta da responsabilidade sobre a escolha de suas emoções, colocando-se na situação de vítima, enquanto na segunda assume uma responsabilidade que não lhe compete, uma vez que não é possível ser responsável pelo que o outro decidiu consciente ou inconscientemente viver e sentir.
Autores como Crema (1985) e Pedreira (1997) concordam a respeito de o disfarce constituir-se em sofrimento para o ser humano, na medida em que é pernicioso para a saúde física e mental do indivíduo, uma vez que encobre o sentir e expressar de Emoções Naturais.
Estudos da Neurociência mostram ligação direta entre as emoções e o sistema de inteligência e da racionalidade. Em suas pesquisas sobre o cérebro humano, Damásio (2012) concluiu que as emoções e a capacidade de planejar, decidir, realizar e conviver socialmente se cruzam em vários locais do cérebro.
Para um melhor entendimento sobre a equivalência das Emoções Aprendidas em uma empresa familiar, recorremos ao conceito de mentalidade de grupos:
“expressão unânime da vontade do grupo, à qual o indivíduo contribui por maneiras das quais ele não se dá conta, influenciando-o desagradavelmente sempre que ele pensa ou se comporta de um modo que varie de acordo com os pressupostos básicos.” (BION, 1975, p. 57).

Segundo Bion (1975), esse fenômeno ocorre de forma semelhante ao papel que o inconsciente representa para o indivíduo e seria responsável pelo “fracasso dos grupos”, considerando que remete à “expressão, num grupo, de impulsos que os indivíduos desejam satisfazer anonimamente e a frustração produzida no indivíduo pelas consequências que para si mesmo decorrem desta satisfação”. (BION, 1975, p. 46).
Bion (1975) identificou diversas situações onde o grupo parece estar mobilizado pela mentalidade de grupo, com destaque para as conversas fúteis, ausência de juízo crítico, situações “sobrecarregadas de emoções” que exercem influências sobre o indivíduo, estímulo às emoções independentemente do julgamento, em suma: “perturbações do comportamento racional do grupo”.
Desta forma, em empresa familiar, como em qualquer organização, o grupo seria como uma moeda, que possui duas faces, uma voltada à consecução dos seus objetivos e outra regida por impulsos dos seus membros, cada um com seu perfil comportamental, porém regidos pela força grupal do Script Organizacional .
Através da compreensão do perfil comportamental de um indivíduo é possível entender mais facilmente suas condutas, ponto de partida para se estabelecer relações produtivas, como afirma Moscovici:
O complexo processo de interação humana exige de cada participante um determinado desempenho, o qual variará em função da dinâmica de sua personalidade e da dinâmica grupal na situação-momento ou contexto-tempo. (MOSCOVICI, 2009, 187).

1.5 POSIÇÃO EXISTENCIAL

De acordo com Berne (1988), Posição Existencial é a forma como percebemos a nós mesmos em relação às outras pessoas, ou ainda, são juízos de valor ou conceitos de si mesmo e dos demais, adquiridos na infância, através de tomadas de decisões, muitas vezes imaturas e irreais, uma vez que são baseadas nas condições precárias da criança para raciocinar e pensar objetivamente diante de realidade.
Berne (1988) definiu quatro Posições Existenciais básicas, organizando-as na seqüência descrita a seguir:
Eu estou OK / Você está Não OK (+/-)
A criança pode adotar esta Posição Existencial, quando é ou se sente abandonada, marginalizada, objeto de sevícias ou brutalidade. Uma criança perseguida parece desenvolver um medo agudo dos adultos, do qual procura fugir a todo instante. Neste tipo de situação, além de desenvolver, perante os outros, a atitude de que “eles não são OK”, parece ter uma espécie de mecanismo de compensação, dentro do indivíduo, para as punições que lhe são impostas pela vida, como a dizer-lhe que ele é OK.
O desenvolvimento dessa atitude leva o indivíduo a sentir que “o mundo é culpado dos seus problemas”. Pessoas que possuem essa Posição como preferencial, em casos graves procuram explorar os outros ao máximo, sem qualquer piedade ou contemplação. Esse tipo de comportamento é próprio, por exemplo, dos delinqüentes, dos criminosos, dos ditadores e dos contestadores.
Eu estou Não OK/ Você está OK (-/+)
Origina-se da incapacidade e da dependência da criança em relação aos pais e outros adultos, nos seus primeiros meses de vida. À medida que ela cresce, essa posição tende, nos primeiros anos da infância, a se acentuar, porque a criança continua mostrando-se inábil e dependente. Ela não conhece nada, são os adultos que lhe explicam as coisas, que lhe dão informações, que lhe ensinam como fazer as coisas, que lhe dão ordens. Os adultos são grandes, ela é pequena.
Dessa forma, alguns indivíduos incorporam essa incapacidade para dentro de sua estrutura psíquica, bem como os sentimentos negativos em relação ao mundo, que por vezes, perduram por toda a sua vida.
Eu estou Não OK / Você está Não OK (-/-)
Essa posição se origina quando a criança experimenta uma sensação de abandono e solidão. Pela falta de carícias positivas, ela pode desenvolver uma atitude diversa: “Eu não sou ok, porque sou fraca e inábil, mas você também não é ok, porque me abandona, quando eu preciso de você”.
Quando esta Posição se fixa e permanece na vida adulta, a pessoa parece assumir perante o mundo e as outras pessoas um desinteresse tão marcante quanto o que tem consigo mesmo. É a chamada Posição Existencial Fútil, caracterizada por expressões do tipo: “Os outros que se danem”, “cada um por si”, etc.
Eu estou OK / Você está OK (+/+)
Posição assumida pela pessoa que tem o seu Estado de Ego Adulto em situação de controle efetivo, que busca Carícias positivas incondicionais e é capaz
de experimentar Transações Complementares nos três Estados de Ego.
Berne (1988) relaciona três questões básicas que desde os primórdios da humanidade o ser humano formula para si mesmo: Quem sou eu? O que estou fazendo aqui? Quem são todas estas pessoas?
As decisões tomadas pelo ser humano em respostas a estas perguntas são a base para a escolha de sua Posição Existencial, que são caracterizadas, em geral não conscientemente, em papéis que o indivíduo representa em sua vida, os quais no ambiente organizacional se manifestam na rotina da equipe.
A competência interpessoal dos membros do grupo é desenvolvida à medida que eles se conscientizam da variedade de papéis exigidos para o desempenho global do grupo e se sensibilizam para o que é mais apropriado às necessidades existenciais do grupo e de seus membros num determinado momento da vida do grupo. (MOSCOVICI, 2009, p. 209).

1.6 SCRIPT DE VIDA

Berne (1988) define Script de Vida como um plano inconsciente de vida ou ainda um programa em marcha, que o indivíduo desenvolve na primeira infância sob influência parental e que irá dirigir a sua conduta nos aspectos mais importantes de sua vida.
As mensagens parentais, chamadas injunções, são enviadas pelos pais (ou substitutos), normalmente de forma não verbal e recebida como ordens pelos filhos, que geralmente, decidem obedecer por não possuírem outras informações.
Berne identificou a existência de injunções, tais como: “não viva”, “não sinta”, “não pense”, “não cresça”, “não seja você mesmo”, “não faça”, “não consiga” (“fracasse”). As injunções tendem a agir por toda uma vida sem que o indivíduo tenha consciência da existência das mesmas. Os pais ou substitutos, por sua vez, também não têm consciência que estão transmitindo tais mensagens.
Em uma empresa familiar, a relação pai/filho(a) ou mãe/filho(a) é fundamental para a sua preservação. Essa relação que já possui complexidade no contexto social, no que diz respeito aos aspectos de figura de autoridade e conflito de gerações, introduz mais uma variável: a de subordinado-patrão, o que Kanitz (2003) chamou de “um pai patrão”. Essa rede de relações tende a suscitar representações de papéis com conteúdo afetivo trazidos da história familiar e de suas vivências, o que determina posições subjetivas assumidas por cada um na família e na dinâmica do trabalho na empresa, cuja eficácia dependerá da qualidade da matriz do Script familiar.

1.7 CULTURA ORGANIZACIONAL NA EMPRESA FAMILIAR

De acordo com Lodi (1987), como toda organização, a empresa familiar também possui sua estrutura de funcionamento, tem leis próprias e acentuada cultura institucionalizada, formada pela história e pelas pessoas que fundaram a organização.
Schein (2009) enfatiza que a cultura organizacional deve ser analisada em três níveis: Artefatos, Valores Empossados e Pressupostos Básicos. O nível de artefatos associa-se às manifestações visíveis da cultura, tais como: padrões de comportamento, ambiente físico, criações artísticas, estilo de roupa, mitos e histórias da organização, listas de valores publicadas e os rituais e cerimônias. O nível de Valores Empossados diz respeito à ideologia da organização, isto é, as estratégias e metas, filosofias, códigos de ética, normas e regras de valores conscientes e explicitamente declarados, que especificam como as coisas devem ser. O nível de Pressupostos Básicos se refere às crenças, percepções e sentimentos inconscientes e inquestionáveis que surgem após longo processo de aprendizagem e passam a fazer parte da visão do mundo e dos membros da organização.
Segundo Berne (2011), a cultura organizacional se estabelece principalmente através do estilo comportamental e quociente emocional do seu principal fundador, o qual ele denominou de Euêmero. O modo como as relações entre os membros deverão ser mantidas ao longo da história, possui uma gravação em nivel emocional, como numa constitutição não escrita e não consciente que governa a vida da organização. Esse mesmo fenômeno acontece no grupo família, através da influência da matriz hereditária na formação da estrutura da personalidade, do Script e da Posição Existencial de cada individuo.
Em geral, nas organizações, além das divergências causadas por interesses explícitos, existem aspectos emocionais subjacentes que potencializam conflitos, fomentados pela interposição de interesses ocultos que repousam na área inconsciente de cada membro e se manifestam na vida do grupo.
Em uma empresa familiar esse fenômeno pode ser ampliado pela intersecção de interesses ocultos entre os dois grupos (família e empresa) na vida de cada membro. Barbieri (1997) ressalta que às vezes essas duas instituições confundem-se e sobrepõem-se, o que dificulta a identificação de questões que dizem respeito à família e às que são referentes à empresa.
Segundo Donnelley (1976), quando a família identifica seus interesses, em longo prazo, com os da companhia, pode-se chegar a um estado de harmonia entre as conveniências de cada indivíduo e as da organização, que normalmente concorrem entre si, reforçada e perpetuada pelo orgulho, identidade e tradição familiar. Donnelley (1976) afirma também que essa unidade de propósito tem sido um fator fundamental no êxito de empresas familiares.

1.8 FASES DO GRUPO

De acordo com Schutz (1989) existe um paralelo entre a formação de um grupo e as dimensões que surgem no desenvolvimento infantil. Schutz (1989) afirma que a natureza da vida em grupo é tal que as pessoas tendem num primeiro momento a determinar se querem ou não pertencer ao grupo (Fase Inclusão), depois a determinar que grau de influência querem exercer (Fase Controle), e, finalmente, a decidir quão pessoalmente próximas irão se tornar (Fase Abertura).
Cada uma das fases, segundo Schutz, está relacionada a um medo básico instaurado na infância do indivíduo.

1.8.1 Características das fases do grupo

Fase Inclusão: necessidade de se sentir parte do grupo ou incluir outros. Demonstração de importância, significado e méritos. Medo básico de ser ignorado.
Fase Controle: necessidade de exercer ou submeter-se a um grau de autoridade. Demonstração de competência. Medo básico de ser humilhado.
Fase Abertura: necessidade de manifestar ou solicitar sentimentos positivos. Demonstração de aceitação, afeição e interação. Medo básico de ser rejeitado.

1.8.2 Fases do grupo em Empresa Familiar

Schutz (1989) afirma que a facilitação para um ambiente de alto desempenho organizacional está diretamente relacionada com a abertura e confiança entre as pessoas, o que significa satisfação individual de necessidade das três fases. Em Empresa Familiar, podemos identificar os seguintes aspectos a serem analisados em cada fase:
Fase Inclusão: O que conduz o indivíduo a participar do grupo empresa? Suas preferências e escolhas livres ou, prevalecem às circunstâncias do negócio e expectativas familiares?
Fase Controle: Qual o efeito das relações cruzadas de poder (estrutura hierárquica familiar x estrutura organizacional) sobre a gestão do negócio?
Fase Abertura: Qual o impacto do tônus emocional do núcleo familiar sobre a coesão da equipe organizacional?
A fundamentação teórica obtida na pesquisa bibliográfica nos permitiu avançar na investigação da relevância e do impacto dos aspectos emocionais na gestão de Empresa Familiar através da aplicação de pesquisa de campo.

2. PESQUISA EM EMPRESAS FAMILIARES

Este capítulo apresenta os procedimentos metodológicos, os resultados e a análise dos dados da pesquisa.

2.1 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Foi realizada pesquisa de campo em empresas familiares, buscando investigar o efeito das relações interpessoais familiares no sistema de gestão de negócio e os aspectos da dinâmica do grupo familiar que impactam nas relações do trabalho. Foi aplicado questionário contendo 17 perguntas com as opções de respostas: Nunca, Às vezes, Quase sempre ou Sempre. A pesquisa inclui uma tabela com 24 tipos de Emoções para avaliar ocorrências na Empresa, pontuando de 0 a 10.
Participaram da pesquisa 27 membros de 21 empresas diferentes. A maioria dessas empresas (85%) possui entre 05 e 50 funcionários e atuam nos seguintes setores: serviços (76%) e Comércio (24%).
O público alvo da pesquisa foram membros da alta direção ou seus representantes e as empresas participantes não são mencionadas nominalmente no presente trabalho.

2.2 RESULTADOS DA PESQUISA E ANÁLISE DOS DADOS

Os resultados foram agrupados considerando aspectos e impactos relacionados à Liderança, Gestão da rotina, Motivação e Vida em família.

2.2.1 Liderança

A pesquisa mostra considerável influência da família na escolha de cargos e também no processo de tomada de decisão, pois apenas 15% consideram que não existe influência de vínculos emocionais familiares na tomada de decisão na empresa.
O estudo mostrou que, por vezes, interesses de cada membro do grupo primário familiar tendem a se manifestar na empresa. Nesse contexto, o exercício de liderança visando equalizar os interesses implícitos e explícitos, torna-se desafiador, considerando que a eficácia da cultura organizacional é influenciada diretamente pela matriz do script familiar, no qual a própria liderança está inserida desde o seu nascimento.

2.2.2 Gestão da Rotina

Ficou evidenciado que aspectos familiares influenciam significativamente na rotina da empresa, pois apenas 26% consideram que problemas na família nunca afetam a gestão e apenas 11% consideram que assuntos da família nunca são comentados na rotina de trabalho.
De acordo com a pesquisa, a comunicação na empresa é afetada pelos vínculos familiares, assim como as negociações e as relações de hierarquia tendem a ser mais difíceis, em função de aspectos emocionais oriundos do grupo familiar.
A dinâmica de um grupo é determinada, em última análise, pelo grau de autenticidade das comunicações que se iniciam e se estabelecem entre seus membros e a facilitação para um ambiente de alto desempenho organizacional está diretamente relacionada com a abertura e confiança entre as pessoas.
Cada família possui um sistema estruturado, consciente ou não, sobre as emoções que se pode sentir e expressar. A partir desse sistema, se estabelece a mentalidade de grupo na empresa, que, quando se baseia em pressupostos básicos sobre crenças, percepções e sentimentos que levam a perturbações do comportamento racional do grupo, dificultam a realização de processos chave na administração.

2.2.3 Motivação

A pesquisa mostra que emoções de Alegria e Afeto, definidas por Berne como Emoções Naturais e típicas de grupos primários, se manifestam intensamente na gestão de empresa familiar, podendo influenciar de vários modos a dinâmica desse grupo de gestão.
Percebe-se que vínculos familiares facilitam a superação de desafios na gestão, além do que em momentos difíceis, o comprometimento dos membros familiares é maior que os demais membros da empresa.
Outro dado relevante é a elevada satisfação em pertencer ao grupo de gestão, pois todos os participantes responderam que percebem satisfação dos membros familiares em pertencer à empresa e que o orgulho pelas tradições familiares é motivo de união do grupo de gestão.
Esses resultados confirmam o conceito sobre o potencial que existe, em empresa familiar, de se chegar a um estado de harmonia entre as conveniências de cada indivíduo e as da organização, reforçada e perpetuada pelo orgulho, identidade e tradição familiares.
No entanto, a distância entre a racionalidade consciente do grupo e seu comportamento de fato, deixa um alerta para a possibilidade de existir uma falsa harmonia sentimental comandando a vida do grupo, observável através dos papéis que seus membros representam no ambiente organizacional.

2.2.4 Vida em Família

A pesquisa mostra que apenas 4% consideram que assuntos da gestão não fazem parte do convívio familiar e a grande maioria considera que preocupações com problemas de gestão afetam negativamente esse convívio.
A incidência das Emoções Aprendidas de ciúme, angústia e mágoa é outro dado relevante. Percebe-se também que conflitos na gestão são fontes de ressentimentos em boa parte das famílias, e que em algumas delas, disputas pelo poder geram desafetos entre seus membros.
Durante a realização da pesquisa, percebemos que alguns membros das empresas contatadas evitaram ou protelaram responder ao questionário. Um dos motivos prováveis para essa relutância é o desconforto causado ao entrar em contato com aspectos do nível sócio-emocional, que, para alguns grupos familiares pode ser um tabu, principalmente aqueles que estruturam o seu tempo com base em Jogos Psicológicos. Essa constatação sugere a confirmação da existência de fenômenos afetivos de grupo em que temores não formulados paralisam os participantes e a própria confissão desses temores torna-se difícil.
Em situações onde membros da gestão concentram sobre si o peso emocional de conflitos, dependendo de sua Posição Existencial, pode-se manifestar o fenômeno de bode expiatório. Membros que assumem esse papel possuem maior propensão às doenças psicossomáticas, pois ao vivenciar sentimentos de disfarce encobrem o sentir e expressar de Emoções Naturais. Diante da dificuldade em lidar com a dualidade Luta-Fuga, mecanismo ativador da Emoção natural de Medo, pode ocorrer afastamento precoce de membros da gestão na tentativa de auto-proteção e/ou manutenção dos vínculos familiares do grupo primário.
A desqualificação ou gestão inadequada das emoções aprendidas de ciúme, angústia e mágoa, podem desencadear conflitos negativos e disputas pelo poder que ultrapassem o limite do ambiente organizacional, fragmentando laços de família e em última instância confirmando a cronologia de glória e ruína da empresa.

3. CONCLUSÕES

O presente estudo teve como objetivo compreender a influencia das emoções nas relações familiares sobre a gestão de negócio familiar.
Foi possível demonstrar aspectos da dinâmica do grupo familiar que podem impactar de forma positiva ou negativa as relações do trabalho em negócio de família. Em relação ao impacto das emoções nas relações interpessoais entre membros da família foram identificadas as principais emoções envolvidas nessas relações e as respectivas conseqüências na gestão do negócio e no convívio familiar.
Ao Investigar o efeito das relações interpessoais familiares no sistema de gestão de negócio concluímos que existe um desafio peculiar da empresa familiar que é superar situações onde necessidades individuais básicas do grupo primário familiar tendem a emergir e se sobrepor às necessidades sistêmicas da gestão do negócio.
Consideramos que o grau de dificuldade desse desafio diminui à medida que a estratégia da empresa inclui: métodos adequados de gestão, ações visando alavancar o desenvolvimento interpessoal de seus gestores e aprimoramento de competências que habilite a Liderança a usar conflitos como ferramenta de melhoria contínua ao invés de simples fonte de desavenças pessoais.
A correlação das emoções nas relações interpessoais, entre membros da família, com os papéis que desempenham na gestão da empresa familiar é um estudo que pode ser aprofundado em pesquisas futuras.
Durante a realização do estudo, identificamos que o processo de profissionalização da gestão de empresa familiar tem sido uma das formas utilizadas na tentativa de minimizar problemas decorrentes da influência da família na gestão da empresa. Analisar os aspectos emocionais envolvidos e possíveis efeitos desse tipo de mudança na organização e na família é um estudo complementar que também sugerimos para pesquisas futuras.

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